Procurava um estilo - algo que se pusesse no
poema como um chapéu para a chuva ou para o
sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso,
com a insólita elegância do equilibrista. Lia
em voz alta os poemas dos outros como se fossem
seus; e, no entanto, não consegia sair da
“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza
os simples imitadores. Uma noite, aproveitou
o isolamento da rua para se observar a si
próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem
és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou
com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,
afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse
da vida? Construía ilusões; e deixava que elas
se esfumassem sem se preocupar em fixar a
sua imagem - afinal, aquilo de que os poemas são
feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas
águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há
muito se desabituara de chamar; julho e agosto
prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê
escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao
nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;
o vento do norte chegava com uma dicção de
antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;
abre-lhes a página; e descobre que és um deles,
envolto num lençol de névoa e retórica.

— Nuno Júdice, Forma (in Por Dentro do Fruto a Chuva)

15 May 2012
theme by simplynorule
★ simplynorule